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  • lumiajoy

...me tornar quem eu quero ser...

Atualizado: 10 de dez. de 2020

...aqui sou passageira do tempo ...dezembro 2020 ... minha casa ficou sendo mais ninho ...mais fortaleza ...mais oficina... criativa e reparadora ... mais templo ...mais conversa animada com as cascas da palmeiras ...mais conversa com minha fiel escudeira Lolita ...

...num percurso ... peregrinação ...processo ... com passos escolhidos para me tornar quem eu quero ser...




“o poeta deve se tornar seu poema

para que seu significado tenha ressonância”



Aos 78 anos, o percurso foi longo, cheio de registros em diferentes atalhos percorridos só e acompanhada. Vou revisar minha memória focando nas experiências que desembocaram na presente Eco visão.


Nasci numa família saudável e bonita, de pais que curtiam estar juntos, na natureza, brincando e relaxando com seus 5 filhos, 4 homens e eu. Sou grata por ter sido educada para ser forte e corajosa como homens; apreciando o ar livre, jogando, descansando ou fazendo esporte, em desafios amigáveis para aumentar nossas habilidades físicas e talentos, aprendendo a confiar em mim e no meu corpo, e podendo contar com os companheiros; aceitando o risco e sempre estendendo um pouco mais os limites e competências, sob o olhar cuidadoso de nossos pais e pares.


Uma família que gostava de fazer coisas com as próprias mãos; apreciava boas ferramentas e sabia como amola-las; com curiosidade para entender como as coisas funcionavam. Meu pai era um autodidata em mecânica. Praticando com tratores, carros, bicicletas, motocicletas e pequenos veículos para nós, crianças; cuidadoso para usar, inventivo para achar soluções simples com os recursos disponíveis e diligente em conserta-los. Sou grata por tudo que aprendi apenas brincando e curtindo fazer coisas com minhas mãos. Minha mãe me ensinou sobre beleza, os talentos do lar e compartilhava conosco o prazer de brincar juntos ... estar junto voluntariamente para fazer algo que gostamos, é precioso e devemos cultivar porque é benéfico numa cultura de parceria, de paz.


Casada aos 17 anos, e com um filho aos 18; aos 24 fui para a Universidade procurando o real significado da vida para dizer ao meu filho, um menino muito inteligente, de 6 anos, Luiz Carlos Levy Filho. Como uma aluna inquiridora, escolhi Filosofia (1964-69) para aprender como pensar – mas tive que fazer Arte, depois (1971-73) para aprender quem eu era e autorizar meu pensar, conquistar confiança na minha própria percepção e intuição. Entendi que arte é a verdade que criamos quando nos revelamos.


Em 1973, com 31 anos me divorciei, tinha um filho e uma grande fazenda para cuidar. Fiz muitos erros e aprendi tremendamente. Tive companheiros dignos ao longo de uma vida buscando o parceiro de alma que encontrei no apogeu dos meus 42 anos, em 1984, quando conheci John Keith Wood... tudo foi integrado com amor e alinhamento. Juntos alargamos um território interno, bem informado pela nossa arte e poesia, cross polinizado por nossos sonhos, iluminado pela sabedoria dele e sua profunda erudição; refinando juntos nosso senso de excelência, aprofundando o autoconhecimento, cultivando uma nova visão e disciplinando nossa intenção. A consciência evolucionária e a transformação coletiva alcançaram um novo horizonte em minha vida. Além da sua pratica extensa com grandes grupos, na Abordagem Centrada na Pessoa, John era um teórico de grande insight nessa abordagem e eu tive o privilegio de uma imersão de 20 anos nesse caminho, traduzindo, participando em centenas de workshops, palestras e conversas que agora estão completamente incorporadas em minha postura (facilitação não diretiva, escuta empática, não julgamento, disposição positiva incondicional, confiança no grupo).


Leitor ávido e amplo, ele me introduziu a Idries Shah e vários mestres Sufis, bem como autores ligados ao meio ambiente: Thomas Berry, Wendell Berry, René Dubois, Aldo Leopold, Linn Margulis, David Orr, Alfred North Whitehead, Edward O. Wilson, Bill Mollison and others; visitamos Stephen R. Gliessman em Santa Cruz, CA, e recebemos a visita de Miguel Altieri e Ana Primavesi aqui na fazenda; apenas mencionando as pessoas mais intimamente ligadas à ecologia. Ele lia 10 livros, me dava o G.I. (General Idea) de 8 e sugeria os dois mais relevantes para eu ler.


Enquanto isso eu usava o longo tempo necessário para refinar a minha Artesania para poder expressar esse entendimento; acreditando que a arte é um importante modo de conhecimento e o trabalho manual é uma excelente ocasião para permitir que a matéria transforme o fazedor. Pus a mão na massa, na forma de livros-de-artista, onde forma e conteúdo alimentam um ao outro; procurando dar ao conceito uma aparência visual – forma-em-ação, iluminando um símbolo ou um significado; a estrutura que conecta as paginas deve elicitar a revelação do conceito. Vivíamos monasticamente, lendo, ensinando, cuidando das laranjas, fazendo arte e viajando para facilitar grupos em workshops da ACP Abordagem Centrada na Pessoa no exterior e no Brazil. Aprendi com o mestre sobre grandes grupos e de fato acredito que podemos melhorar nosso modo coletivo de decidir; refinar nossa expressão e comportamento coletivos, para sermos capazes de intencionar mais efetivamente se, como ele diz: “voltarmos a melhor parte de mim para a melhor parte do outro para que algo de imenso valor possa emergir que nenhum de nós poderia ter feito sozinho”.


Esse foi o tempo mais criativo da minha vida, quando desenvolvi minha arte mais importante, fruto desse amor e do fértil território interior e exterior que cultivamos juntos ...We had a dream, tínhamos um sonho para este lugar; éramos bons alunos de nós mesmos, das circunstancias e do “a volta”... aos poucos fomos descobrindo a agro ecologia, a complexidade ambiental e a interconectividade de tudo com todos, e cultivando uma nova visão de mundo.


Em 1988, participamos do I Congresso Holístico Internacional, em Brasília, organizado por Roberto Crema e Pierre Weil, e por muitos anos nós cross- polinizamos essa grande rede em vários congressos e programas de treinamento. Em 1997, fui convidada para coordenar a Ambientação do VI VI Congresso Internacional Holístico e Transpessoal, em Aguas de Lindoia (4-7 set); uma honra e um desafio que me inspiraram a criar algo que se tornou tema central da minha inquirição: “Tendas de Entendimento”, 7 sedas penduradas de um suporte que permite transformações para expressar 4 configurações: Casa, Praça, Oficina e Templo como metáfora para expressar nossas 4 dimensões: pessoal, social, professional/ambiental e espiritual. Até hoje elas me ajudam a entender as perguntas eternas: quem? com quem? como? porque? tentando de vários modos expressar a complexidade da nossa existência... isso que hoje é chamado de Ecologia Profunda.


Em 2000, registramos parte da fazenda, em perpetuidade, como uma RPPN – uma Reserva Particular do Patrimônio Natural, através do IBAMA. Seus olhos ternos tinham grande habilidade de observação, que era digerida por uma mente privilegiada, também formada em engenharia, cultivada e erudita, que digeria e voltava como um pensamento original; um mestre facilitador de grupos; um teórico na Abordagem Centrada na Pessoa; um fiel parceiro cultivador, meu companheiro de alma! Sou grata a esses 20 anos de amor intenso que elevou minha visão – a uma Eco dimensão, deixando marcas na terra!


Sua passagem em 2004, deixou a vida sem graça e eu me perguntando porque ainda estava aqui? Em agosto 2004 fui a Califórnia para seu memorial, e ouvi de Jo Hanson sobre os Bioneers e assim participei da minha primeira Bioneers Conference. Restaurou alguma esperança; pareceu ser uma “turma” inspiradora e talvez eu pudesse encontrar jeitos de continuar o sonho para este lugar. Nos 5 anos seguintes participei das Bioneers Conferences, li vários livros de: David Orr, Kenny Auzubel, Nina Simons, Paul Hawken, Fritjof Capra, Janine M. Benyus, Nancy e Jack Todd, David Abram, Zenobia Barlow, William Mc Donough & Michael Braungart, etc. Certamente, fui introduzida à vanguarda do campo ecológico, mantendo vivo o sonho de um mundo melhor, inspirado pelos tons épicos característicos dos tempos míticos dos novos começos. Assinei a revista Resurgence e ganhei acesso a outra grande porção desse campo. (menciono essas referencias para apreciar os percursos, links e campos compartilhados onde é possível reconhecer as raízes do meu pensamento atual).


Nos Bioneers senti falta do circulo; ter uma troca de ideias mais próxima; o grande numero de participantes (3000?), uma inescapável estrutura acadêmica, a abundancia de expoentes e de pessoas especiais, favorece celebridades; nunca pude encontrar um nicho para meu trabalho.


Enquanto isso, na fazenda, depois do passamento de John (2004), em desespero arrendei uma grande área para plantio de cana de açúcar. Em 2013 a terra ia voltar para meus cuidados, assim em 2012 me pareceu hora de entender melhor o que eu deveria fazer aqui. Através da Resurgence soube do curso no Schumacher College – III Cultivating an Ecoliterate Worldview: Person, Practice and Place. Depois de muito tempo, eu tinha recém vendido dois lotes de terra para meu irmão e pude pagar por esse aprendizado e experiência.


O intensivo no Schumacher só veio confirmar a importância dos autores que o John me introduziu; e veio também confirmar a ênfase no entendimento intuitivo, o valor da imaginação e a integração do nosso ser total no objeto ou campo que estamos querendo estudar, pesquisar, expressar, comunicar... Schumacher Ecoliterate Worldview e seu jeito husbandry de pensar/ser/fazer foram grande confirmação e um modelo inspirador para o que gostaria de ver acontecer aqui!


O mesmo espirito da Abordagem Centrada na Pessoa ressoa em muitas vozes... Patrícia Shaw: “Explorar o aprendizado que acontece numa jornada que é simultaneamente tanto interna quanto externa, simultaneamente um encontro com outros e o mundo, e um encontro consigo mesma... quando pessoas se reúnem preparadas por toda suas vidas até agora, mas sem ensaio especifico de como contar isso ou aquilo, têm a chance de se encontrarem espontaneamente recontando experiências e reflexões de um modo novo, tanto para quem fala como para quem escuta...se movendo num panorama onde cada um precisa ouvir atentamente para poder se achar espontaneamente falando na conversação emergente”... ela ainda cita Hannah Arendt: “nos encontramos como pessoas inteiras quando assumimos o risco de falar num encontro de colegas...algo extraordinário pode acontecer quando estamos presentes com outros em um espaço aberto à escuta e à fala, onde os tópicos, ordem e maneira de contribuir não tenham sido inteiramente estruturadas previamente”. The ‘Journey School’ em Spineto, Italia, 2012.


Sonho um “Santuário de Transição”, e estou dedicando 10 hectares desta fazenda para uma Experiência Coletiva Orientada por um Projeto com a pergunta central Como Viver Bem em um Lugar? Um Habitat para Pensar, Fazer e Ser a fim de manifestar a presença humana de modos que honre a vida e celebre o pertencimento. Compartilhando e nutrindo uma visão de mundo mais eco competente; aprender fazendo; fazendo junto; aprender com o lugar; ultrapassar limites com a força de um sonho comum; buscar a medida apropriada entre privacidade e comunidade; trabalho e fruição; o racional e o afetivo; estudo e experiência; o feito a mão e o industrial; a visão feminina e a masculina; um design social a partir de uma consciência evolucionaria mais madura; que começa por ouvir atentamente o espirito do lugar – o genius loci.


“Entendimento é achar relações ... nada pode ser entendido em si mesmo” Mary Midgley ‘Beast and Man”


Preservação, Pesquisa, Prazer e Proposito, con sentido e con fiança, apoiada na esperança intrínseca ... a vida querendo conhecer-se a si mesma ... “o amor por aquilo que quer tornar-se”...


“Se as pessoas viverem tempo bastante num lugar, a qualidade do lugar entra na substancia de suas vidas” René Dubois


Como diz Satish Kumar “a verdade precisa de uma mente inclusiva, a bondade precisa um coração gentil e a beleza de mãos habilidosas.


O meu lema é; “sonhar alto, fazer meu melhor e um esforço a mais pelo belo” ...sentar entre colegas para falar, escutar, e tecer o destino da espécie...esse lugar que tanto existe quanto está sendo criado!




Lucila Machado Assumpção

RPPN Estância Jatobá

2013,16,19,20…

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1 Comment


Jaana Bombin
Jaana Bombin
Dec 07, 2020

You have been walking not only with the planet Earth but also with the Sky.

And shining Stars.

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